Release do livro: 'Dilemas de um juiz – a aventura obrigatória'
Autor: João Baptista
Herkenhoff.
Editora: GZ EDITORA,
Rio de Janeiro.
Preço do exemplar:
R$ 32,00.
Número de páginas: 142.
Número de capítulos: 35.
É o quadragésimo livro do autor.
E-mail do autor: jbherkenhoff@uol.com.br
Homepage do autor:www.jbherkenhoff.com.br
E-mail da editora: lmj@lmj.com.br
Telefones da editora:
(021) 2240-1416 ou 1406.
Resumo do livro:
numa linguagem amena, o autor conta muito de sua experiência como Juiz.
Exerceu esta função em dezesseis comarcas do interior do Espírito
Santo e na capital do Estado. Para o jurista o livro oferece, sem dúvida,
lições de Direito. O leigo encontrará na obra um testemunho de vida,
pelo que o interesse pela leitura não se limita ao mundo jurídico.
Doença, tropeços, confissão de erros, alegria por acertos: tudo isto
está contido nas páginas deste livro.
Íntegra do Capítulo
19 do livro:
Audiências virtuais
As invenções em geral
devem ser celebradas como conquista da Humanidade. Não devemos, de
forma alguma, recusar o avanço tecnológico, que se manifesta nos mais
diferentes campos de atividade. Entretanto, o progresso e o avanço
tecnológico devem estar sempre submetidos a critérios éticos e humanos.
Por esta razão, não
vejo com simpatia a supressão do contato de juízes com as partes,
inclusive nos interrogatórios, através da substituição de audiências
presenciais por audiências virtuais.
Em determinados casos são razoáveis as audiências on-line, como, por exemplo, para evitar gastos dispendiosos com a condução de presos até a presença do magistrado. Em certas situações, a condução de presos que têm notoriedade na imprensa, para comparecer perante juízos distantes do local em que se encontram, tem como única conseqüência provocar uma enorme repercussão, justamente pelo absurdo da esdrúxula situação.
Também é razoável
que se prefiram as audiências virtuais naquelas hipóteses em que se
torna inteiramente desnecessário o contato humano, face a face.
Quando o contato humano
é necessário, a audiência virtual é uma brutalidade.
Na minha vida de juiz,
em inúmeros processos, somente a presença de réus ou rés diante
de mim, permitiu que eu pudesse aquilatar os fatos com exatidão buscando
a boa distribuição da Justiça.
Teria centenas de casos
a mencionar, porém um dos mais apropriados para referência neste capítulo
parece-me que seja o de Edna. Prestes a dar à luz, Edna estava presa
há meses porque fora encontrada com alguns gramas de maconha.
Na presença dela, dei,
em voz alta, este despacho:
“A acusada é marginalizada de várias maneiras: por ser mulher, numa sociedade machista; por ser pobre, cujo latifúndio são os sete palmos de terra dos versos imortais do poeta; por ser prostituta, desconsiderada pelos homens, mas amada por um Nazareno que certa vez passou por este mundo; por não ter saúde; por estar grávida, santificada pelo feto que tem dentro de si, mulher diante da qual este Juiz deveria se ajoelhar, numa homenagem à maternidade, porém que, na nossa estrutura social, em vez de estar recebendo cuidados pré-natais, espera pelo filho na cadeia.
É uma dupla liberdade a que concedo neste despacho: liberdade para Edna e liberdade para o filho de Edna que, se do ventre da mãe puder ouvir o som da palavra humana, sinta o calor e o amor da palavra que lhe dirijo, para que venha a este mundo tão injusto com forças para lutar, sofrer e sobreviver.
Quando tanta gente foge da maternidade; quando milhares de brasileiras, mesmo jovens e sem discernimento, são esterilizadas; quando se deve afirmar ao Mundo que os seres têm direito à vida, que é preciso distribuir melhor os bens da Terra e não reduzir os comensais; quando, por motivo de conforto ou até mesmo por motivos fúteis, mulheres se privam de gerar, Edna engrandece hoje este Fórum, com o feto que traz dentro de si.
Este Juiz renegaria todo o seu credo, rasgaria todos os seus princípios, trairia a memória de sua Mãe, se permitisse sair Edna deste Fórum sob prisão.
Saia livre, saia abençoada
por Deus, saia com seu filho, traga seu filho
à luz, que cada choro de uma criança que nasce
é a esperança de um mundo novo, mais fraterno, mais puro, algum dia
cristão."
Talvez eu não tivesse
libertado Edna, se a acusada não estivesse diante de mim. Foi ao vê-la
grávida, incomodada com o peso do feto, pois recusou sentar-se dizendo
que ficava mais à vontade de pé, que eu pude compreender a dimensão
do seu sofrimento. Foi diante de Edna mulher, Edna ser humano, que pude
perceber o que significava para ela estar presa.
Por outro lado, no reverso
da situação, foi devido ao fato de Edna ver o juiz na sua frente que,
ao ser solta, disse que a criança, que ia nascer, teria o nome do juiz,
se fosse homem. Mas nasceu uma menina que se chamou Elke, em homenagem
a Elke Maravilha.
Foi porque o juiz a libertou
olhando nos seus olhos que Edna, que era meretriz, mudou de vida. Disse
que poderia passar fome, mas que prostituta nunca mais seria.
Uma outra situação em que a audiência presencial tem extrema importância é na ausculta de testemunhas. Os magistrados experientes sabem quando a testemunha está falando a verdade e quando a testemunha está mentindo. Somente o “olho no olho” é que possibilita aquilatar a validade do depoimento e surpreender o perjúrio. Acho que nenhum juiz, calejado no seu ofício, deixa-se enganar por um falso testemunho. Nas audiências virtuais isso seria totalmente impossível.
Revista Jus Vigilantibus, Domingo, 3 de maio de 2009
Comentários
O Mestre Dr. João Batista é um brilhante jurista e escritor, portanto, penso ser de suma importância a leitura dos ensinamentos que estarão nesta obra literária. Parabéns, desejando um excelente vendagem.
– Leonice, translation missing: pt, datetime, distance_in_words, almost_x_years atrás.
Excelente trecho este publicado no artigo, gostaria de parabenizar o Dr. João Batista pela obra e dizer que fiquei muito curioso para fazer a leitura do livro. Humildimente e encarecidamente gostaria de saber se alguém poderia me fornecer um exemplar já que não disponho de recursos para tal. Na espera de uma boa consciência humana se sencibilizar, aguardo pela encaminhamento, grato pela oportunidade.
Obs.: Avenida Adolfo Moitinho,65, Centro.
Cidade: Irecê, Bahia
Cep: 44 900-000
– Weder R. da Silva, translation missing: pt, datetime, distance_in_words, almost_x_years atrás.
fiquei emocionada com suas historias fantasticas de ser juiz.
nao gosto de injustiça,a verdade sempre apareçe mais cedo ou mais tarde,quero uma sociedade mais justa e que lute pelos seus direitos e quanto menos se espera a justiça ha de ser feita ,por isso quero ser juiza,defender quem e inocente..
– andresssa, mais de 2 anos atrás.
Já dizia Exupery: "só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos". Quanta verdade nestas simples palavras.
Doutor João, pode-se inferir no texto esta arte, este dom que a frase citada carrega: lançar com o coração "um olhar" que pespegue o essencial, subtraindo-se as meras aparências, indo ao âmago em busca do essencial.
Parabéns, doutor João, por seu relatado ato.
– gildeone balsanulfo de brito, mais de 1 ano atrás.
Um ser humano dotado de conhecimentos, saberes necessários a sua formação, porém, com os pés no real chão desse mundo, de tantas injustiças, busca ser justo, poéticamente justo, verdadeiramente lindo, ao dar sua verdadeira sentença, banhada de sentimentos nobres, advinda de um coração de um juíz, que, antes de tudo, é um ser humano..
– eliana, mais de 1 ano atrás.
ACHO BONITA, INTERESSANTE E IMPORTANTE PARA OS JUIZES QUE ESTÃO INICIANDO A VIDA DE MAGISTRADOS, O TESTEMUNHO DO HONRADO JUIZ, ENTRETANTO, CREIO QUE A DESPENALIZAÇÃO NÃO DEVE SER A REGRA GERAL PARA UMA SOCIEDADE JÁ TÃO DESACREDITADA EM SUAS LEIS, JULGAMENTOS E CUMPRIMENTOS.
– HADIB GABRIEL ALVES ITAPÁ, mais de 1 ano atrás.
DR.João batista:
Realmente nos emociona com seus escritos.Fala com a alma para o coração sentir. Obrigado por existir!
Maria de Fátima Medeiros Souza
Santa Vitória-MG (Triângulo Mineiro)
– MARIA DE FÁTIMA MEDEIROS SOUZA, aproximadamente 1 ano atrás.