Operadores do Direito à moda montessoriana
por Luiz Guilherme Marques.
Até o início do século XX a Pedagogia usual na maioria das escolas pouco tinha assimilado das idéias de COMENIUS (1592 - 1670), ROUSSEAU (1712 - 1778) e PESTALOZZI (1746 – 1827).
Recebendo um grupo de
crianças para educar, no ano de 1906, MARIA MONTESSORI (1870 -
1952) aplicou a elas o método que tinha desenvolvido para crianças
portadoras de necessidades especiais,com excelentes resultados, fazendo
com que se criassem muitas escolas dentro daquele estilo novo. Atualmente,
a Pedagogia Montessoriana é conhecida no mundo inteiro, representada
por escolas onde se procura despertar os alunos pelo autêntico amor
dos mestres aos seus alunos.
Uma das mais importantes
preocupações desse modelo é a preparação dos professores.
Não basta apenas seu preparo intelectual. Há requisitos muito
mais importantes, os quais infelizmente sequer são abordados pela Pedagogia
tradicional. No seu livro A Criança, comenta a médica e pedagoga italiana:
A preparação
que o nosso método exige dos professores
é a autoanálise, a renúncia
à tirania. Terá de eliminar do seu próprio coração a
ira o o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade.
(p. 223)
Reflitamos
sobre pontos-chave do ideário montessoriano.
1) “Autoanálise”.
É necessária uma reflexão permanente sobre a própria intimidade;
as atitudes; forma de pensar, sentir e agir - tudo visando o aprimoramento
interior, aumentando as virtudes e eliminando os defeitos morais.
2) “Renúncia
à tirania”. Os adultos agem como tiranos em relação às crianças.
É preciso analisar até que ponto se está realmente contribuindo para
o crescimento mental, intelectual e emocional daqueles seres em desenvolvimento
sem abafar o desabrochar do seu mundo interior, que é o que realmente
importa. Educar não é transformar a criança num repositório de informações
estandardizadas e sem nenhuma idéia de individualidade. Cada criança
é um universo à parte, rico pelas suas peculiaridades. Hoje em dia
muitos pais e professores passaram da tirania à permissividade mais
irresponsável.
3) “Ira”.
A violência verbal e/ou física é a forma usual do adulto
impor-se à criança ao invés de conquistá-la pela afetividade sincera
e induzi-la ao aprimoramento. Atualmente, a ira de muitos pais e professores
foi substituída pelo descaso.
4) “Orgulho”.
O sentimento de poder absoluto faz com que o adulto não veja na criança
seu parceiro mas sim um mero subordinado. Tendo normalmente passado
na infância pelo “rolo compressor” dos adultos, os atuais adultos
aplicam às crianças o mesmo modelo autoritário dos seus pais, avós
e professores.
5) “Humilhar-se”.
A expressão que corresponde melhor à idéia da autora é “fazer-se
humilde”, ou seja, agir de forma espontaneamente não-arrogante,
ter uma mentalidade democrática. Sem esse despojamento realizado naturalmente
não há condições para um diálogo realmente proveitoso.
6) “Caridade”.
Trata-se de uma expressão tipicamente cristã, algo parecida com a
compaixão dos budistas e a fraternidade do dístico Liberdade, Igualdade
e Fraternidade. Representa a doação de si próprio aos destinatários
do trabalho.
Fazendo uma comparação
com a Justiça, verifica-se que ainda há muito que se fazer quanto
à preparação dos operadores do Direito. Não se pode mais pensar
nessa instituição como mera castigadora, mas sim como uma instituição
encarregada da Pacificação Social, o que se consegue sobretudo pelo
diálogo entre os litigantes.
Pensemos, no nosso caso, sobre os requisitos necessários à nossa formação ideal: exercício de autoanálise; renúncia à tirania; renúncia à ira; renúncia ao orgulho; fazer-se humilde e agir com caridade.
Revista Jus Vigilantibus, Quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Comentários
Excelente!!
– Shen Rochus Mingli, mais de 2 anos atrás.