Diálogo sobre a verdade
por Paulo Queiroz
“O Sr.
é o melhor pai do mundo”! Disse-lhe a criança.
Bem, isso não é bem
verdade, filha, respondeu-lhe o pai.
Como assim?
É que eu não sou o
único pai do mundo e estou certo de que existe um sem número de pais bem
melhores do que eu; mais: certamente há um bilhão de filhos que dizem o mesmo
sobre seus pais e talvez seus próprios pais e irmãos não concordem.
Sei, mas eu sou
sincera!
As outras crianças
também o são.
O Sr.
quer dizer então que eu estou mentindo?
Não é bem assim...
É isso mesmo, o Sr. está me chamando de mentirosa! Gritou indignada.
Acho que não me
expressei bem; quis dizer que sua afirmação, embora sincera, não é exata. Sua
afirmação só seria verdadeira se você fosse filha de todos os pais do mundo,
tivesse convivido com todos eles e só então poderia concluir: “você é o melhor
pai do mundo”, com exclusão de todos os demais. Mas essa experiência é
impossível.
Eu não o entendo...
Nem eu tampouco...
Aliás, ainda que você
tivesse um bilhão de pais, ainda assim sua conclusão seria certamente contestada
por um bilhão de outros filhos, irmãos e pais inclusive, com a mesma
legitimidade.
Mas eu estou dizendo
a verdade; e você sabe o quanto eu o amo.
Claro. Quis dizer
apenas que sua afirmação não é correta.
Dá no mesmo! Retrucou
o filho mais velho, que a tudo ouvia.
Não creio. A rigor,
sentimentos não são verdadeiros ou falsos, mas sinceros ou não. É que, como diz
Kant, sobre esses assuntos não pode haver nenhuma regra de gosto objetiva que
determine por meio de conceitos o que seja o belo, pois todo juízo proveniente
desta fonte é estético, isto é, o sentimento do sujeito e não o conceito de um
objeto é o seu fundamento determinante (Crítica da faculdade do juízo. imprensa nacional, 1998, p. 122).
Mas pensando melhor,
acho que você tem razão. O que você diz é a mais absoluta verdade.
Agora é o Sr. que parece estar mentindo...
Não, estou sendo
sincero. Sim, porque o que é afinal a verdade senão o ponto de vista de alguém,
situado no tempo e no espaço, com pretensão de universalidade? Quem recorre à
verdade pretende universal o que é particular, local. Enfim, a verdade é apenas
um sintoma, um nome, um conceito.
Não entendi...
Quis dizer que a
verdade é sempre “minha” verdade, “sua” verdade, “nossa” verdade, ou seja, é
sempre uma verdade que exclui diversas outras num universo de representações
(de verdades) possíveis, ainda quando as julgamos absurdas, infundas etc. Logo,
não é a interpretação que depende da verdade, mas justamente o contrário: é a
verdade que depende da interpretação.
Na realidade, antes da
verdade existe uma vontade de verdade, e, pois, uma crença na verdade, uma
crença na superioridade moral da verdade sobre a mentira, uma vontade de poder,
vontade de fazer prevalecer uma dada opinião, isto é, vontade de autenticar
palavras, situações, desejos com um nome quase sagrado: verdade. Como dizia
Nietzsche, cada um tem a perspectiva que gostaria de impor como norma a todos
os demais.
Parece-me, pois, que
a única coisa realmente universal é o uso da palavra verdade, mas não o que ela
pode significar em cada contexto, porque uma concepção da verdade para além do
tempo e do espaço, logo, para além do homem, é uma mentira.
Concluo assim que
você diz a verdade quando afirma que “eu sou o melhor pai do mundo”, mas também
todas as crianças do mundo que dizem o mesmo para seus pais, ainda quando são
eventualmente contestadas por seus irmãos, pais ou estranhos.
Revista Jus Vigilantibus, Sabado, 27 de setembro de 2008