Amor Lancinante
por Vinício C. Martinez
Ultimamente, temos ouvido falar muito de um “terror lancinante” que nos recorta, recheia e, receosos, nos enredamos com as coisas temerosas, quando não tenebrosas. Muitas são elas, mas só para citar: violência, pobreza, solidão, terrorismo, cataclismo do planeta (se bem que este último, poucos se dão ao luxo do interesse).
Hoje, porém, quero rever o quadro, olhar pelo outro lado da mesma janela, desembaçando-a como vidraça da alma. Nessa espiadela, vou de Amos Óz, um escritor israelense de primeiríssima linha. Ele fala de um “amor lancinante”, mesmo que seja um “amor nos tempos da cólera” ou em “tempos sombrios”.
Na minha interpretação, quer dizer que a violência é um ato da razão praticada pelo Estado, grupos terroristas, ou a dos simples ladrões e assassinos. Já o amor pode ser dividido em duas categorias, ambas fugidias da regra da razão preza a tudo.
1) O amor é contemplação, a dor da espera, a esperança que é uma quase-angústia e um desejo incontrolável de ver o Outro. Esse é o amor das mulheres, principalmente se for mãe. É um amor que se dá na cabeça, nos olhos e no coração.
Para Amos Óz, o mundo precisa abrir suas janelas, arejar, oxigenar estruturas arcaicas (na mente, no coração e na política). Precisamos de mais disposição para ver o Outro. Mesmo que o antagonismo esteja à flor da pele, precisamos ler o outro:
“Leiam romances, caros
amigos. Eles lhes dirão muito. E essas mulheres também devem ler uma
sobre a outra. Para saber, enfim, o que deixa a outra mulher na janela
aterrorizada, irada ou cheia de esperanças [...] TODAS AS MULHERES,
EM TODAS AS JANELAS, ESTÃO, no final do dia, PRECISANDO
URGENTEMENTE DE PAZ” (Em: http://www.estadao.com.br
2) O amor é puro sentimento, emoção viva, volúpia e força explosiva. Este é o amor de homens e mulheres “numa só carne”; o amor que se torna um sexo depravado, incontido pelos dogmas e pela “racionalização da moral”. É um amor que percorre todo o corpo, como faísca elétrica que incendeia e corrompe as grades da certeza dos que sabem o que se pode ou não fazer. Aqui, o sexo é um amor sem limites: é carne-viva.
“Ivria [a esposa], por seu lado, lhe concedeu na cama surpresas que ele não pudera imaginar [...] com a força da fome dela misturada a ternura, generosidade, numa tensão musical para descobrir cada anseio dele. O que foi que eu fiz? Perguntou uma vez baixinho [...] E ele [...] Proporcionava a ela prazeres arrojados e, quando o corpo dela era tomado por ondas de êxtase e seus dentes batiam como se fosse de frio, sentia muito mais prazer com o prazer dela que com o seu próprio [...] Porque ele estava totalmente envolto estremecendo dentro dela. Até que, com cada carícia, apagava-se a diferença entre acariciador e acariciado, como se tivessem deixado de ser homem e mulher no ato amoroso e fossem uma carne só” (“Conhecer uma mulher”, p. 72).
Amos Óz: até o nome do cara é poético, instiga você a pensar o que os pais quiseram dizer ou quanta cultura se liga a ele, só pelo nome, qual o peso da tradição que carrega. Por isso mesmo, esse amor como eterna sensualidade, não se encaixa na “jaula de ferro” da racionalidade, como a descreveria o sociólogo alemão Max Weber.
Para Weber, o erotismo, aliado à cultura e à intelectualização, levaria ao GOZO CONSCIENTE: programado, estudado, pensado. Indianos e chineses possuem técnicas que ainda prolongam o ato sexual para mais de uma dezena de horas. Isto certamente é racional, pois que, além de deliberado, deve-se ao emprego de técnicas e estas procuram ser precisas: a razão leva à precisão (para o bem e para o mal).
Então, ao contrário da “consciência da carne”: para as mães que olham pela janela do mundo ou entre amantes que se retorcem em “uma só carne”, vale a regra intempestiva da paixão. Para esses: o amor não tem pressa, quando se está junto, mas passa depressa; e tem uma ansiedade enorme para se rever, quando se está longe. Para esses: sexo é amor, uma vibração musical que vai do calor intenso ao ranger de dentes como se fosse calafrio, do êxtase à ternura, “numa só carne”.
Revista Jus Vigilantibus, Terça-feira, 22 de janeiro de 2008