A “casta econômica” brasileira
por Vinício C. Martinez
Em matéria especial
do provedor UOL, seção de Economia do dia 13/01/2008 (http://forum.economia.blog.uol
A matéria é interativa e permite que deixe seu recado, como eu fiz. Contudo, penso que com esses dados, sem necessidade de ser economista ou expert no tema, não é difícil concluir algumas coisas de natureza social, política (para não dizer ética), econômica e comparativa.
No plano básico, é apenas uma comprovação empírica da repetição de nossa "história republicana": a economia cresce, o país cresce; mas cresce ainda mais a desigualdade e a injustiça. Os 60 mil novos milionários provam, matematicamente, que não houve "desenvolvimento" e muito menos distribuição de renda e de riqueza nas últimas décadas, no Brasil.
Comparativamente, no
mesmo dia, também no UOL (http://noticias.uol.com.br
“As ruas das cidades indianas estão cheias de pessoas como Takur: barbeiros, limpadores de ouvidos, sapateiros e alfaiates, um pelotão de assistentes pessoais para as massas urbanas do país. Mas para muitos deles a ascensão econômica da Índia reduziu sua base de clientes, pois cada vez mais indianos são capazes de pagar versões mais caras de seus serviços nos novos shopping centers. A enorme riqueza demorou para chegar ao nível da rua, onde vive a maior parte dos 400 milhões de trabalhadores”.
Como um privilegiado, Takur quase sempre ganha 6 dólares por dia, e que é exatamente o triplo do salário ganho diariamente pela maioria dos indianos.
Em outra comparação estatística, a China passou a se preocupar mais agudamente com os 300 milhões de pobres e/ou miseráveis que vagueiam, sem norte e sem prumo pelo país afora. Alguns falam em uma “onda de banditismo”, afinal, é um Brasil inteiro à deriva, à espera das migalhas que caiam da mesa ou da balança da economia globalizada.
Então, quais seriam as relações possíveis de se fazer?
A mais óbvia é de que há uma enorme concentração de riqueza nas economias em desenvolvimento, além do fato de que milhões são apenas números sem sorte, na roleta do crescimento econômico.
Também é fato notório, nos três exemplos citados, que só há crescimento econômico e não desenvolvimento social e sustentável. O governo indiano, pelo menos, admite receio de que esta subclasse de 400 milhões de pessoas se revolte.
A Índia quer modernizar-se e, de certo modo, ocidentalizar-se. Veja-se que a Constituição indiana declara o país como República Democrática Soberana Socialista Secular. Também consagrou formalmente a isonomia, determinando-se que o Estado não poderia discriminar ninguém com base na religião, raça, casta, gênero ou local de nascimento. Ainda aboliu a chamada “casta dos intocáveis” e declarou que a “intocabilidade” e a utilização desse costume imemorial é um delito agravado de pena. Aboliu-se, por fim, o uso de títulos nobiliárquicos ou “honrarias de classe”.
A China, neste sentido, é tida como a grande chaminé do mundo, consumindo cerca de 30 % a mais de recursos do que o ambiente consegue repor (a Índia seria o escritório do mundo).
Outra conclusão vem do fato de que, descontados esses 190 mil milionários e mais um punhado da “classe média” brasileira, o restante vive como Takur ou como os milhões de miseráveis chineses. Nossa Constituição, tal qual a da Índia, prevê a soberania popular, a isonomia e a Justiça Social. Mas, é para inglês ver, pois quando falamos em “novos ricos”, deveríamos pensar nos “antigos e novos pobres”.
Revista Jus Vigilantibus, Terça-feira, 15 de janeiro de 2008