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O desaparecimento da informação

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O poder da informação persistente é fabuloso. Imaginemos um mundo em que as informações só pudessem ser transmitidas oralmente, como era o nosso antes da invenção do papel, que, ao lado da escrita, certamente foram as duas maiores invenções para o desenvolvimento da humanidade além da linguagem. A informação perseverante é responsável tanto pelo surgimento dos organismos vivos através do DNA como do nascimento da civilização. A grande maioria do nosso conhecimento provém da palavra escrita. A queima da biblioteca de Alexandria por Júlio César em 48 A.C. é considerada uma das maiores perdas de cultura de todos os tempos, pois, naquela época, os livros eram commodities acessíveis apenas a um número extremamente limitado de pessoas. Com a invenção da prensa por Gutenberg os livros decolaram, logo seguidos dos jornais e deixaram de ser apenas uma tecnologia de arquivamento para tornarem-se um meio de transmissão de informações. Depois de servir à humanidade por séculos o papel está recedendo, dando lugar a novas formas de preservar e transferir informações. Desenvolvido pela primeira vez há cerca de 1.900 anos por um vassalo do imperador chinês Ho-Ti da dinastia Han, que macerou casca de amoreira com cânhamo e água e deixou a mistura secar ao sol, o papel obteve sucesso imediato na China mas somente 1.000 anos depois apareceria no resto da Ásia e da Europa, ganhando o mundo e chegando até nossos dias. Nenhum outro meio de armazenamento foi tão eficiente e duradouro quanto o papel na história da humanidade. Mas nossa era digital está ameaçando este resiliente aliado com as comunicações instantâneas da Internet. Hoje todos podem saber tudo sobre nós sem precisar da impressão como meio de propagação. Através de redes sociais eletrônicas como Facebook, Twitter e blogs, nossos amigos e colegas de trabalho podem conhecer todos os detalhes de nossas vidas e emoções, pensamentos e opiniões; mas o que nossos netos saberão realmente sobre nossas vidas?

Ao envelhecermos, o que teremos para lembrar da juventude, quando os e-mails, as mensagens de texto e as fotos digitais já houverem sido deletadas? No mundo contemporâneo absurdamente digital, não nos damos conta de que não estamos “capturando” praticamente nenhuma informação para o futuro. Temos tudo arquivado em nossos computadores e trocamos tudo eletronicamente e, com exceção de alguns poucos que imprimem tudo, todas estas informações desaparecerão quando a tecnologia mudar. E vai mudar. Talvez não nos próximos anos, mas daqui a 50 anos ela será completamente diferente, se considerarmos apenas os avanços recentes da ótica, da nanotecnologia e dos lasers. Sem falar que as mídias magnéticas (de que são feitos os discos de armazenamento dos computadores) possuem validade como qualquer outro produto; são suscetíveis de obsolescência e vulneráveis a ataques ou acidentes externos. Eis por que não podemos descartar o lápis e o papel, pois nem todo papel é criado de forma igual. Os livros, nossos inesquecíveis professores, não irão desaparecer tão rápido quanto outras modalidades impressas. Enquanto jornais e revistas estão em visível declínio, os livros resistem bravamente. A experiência de ler um livro eletrônico é muito inferior à de um livro físico. Os livros são mágicos, nós apreciamos tocá-los, senti-los, gostamos de virar suas páginas e experimentar intensamente a aventura de ler. 21 cópias da pioneira Bíblia de Gutenberg existem até hoje, 500 anos depois. Os pergaminhos do Mar Morto, recentemente digitados, resistiram a mais de dois milênios. E os livros eletrônicos, quanto tempo sobreviverão? O ambicioso Google Books Library é um projeto do gigante de busca online de digitalizar o conteúdo impresso de centenas de bibliotecas mundiais, mas quanto tempo esta informação durará e até quando poderá ser lida diante dos vertiginosos avanços tecnológicos que se avizinham? As informações podem até residir intactas no interior das moléculas metálicas existentes num disco rígido de computador antes que o óxido de ferro descasque da base plástica num prazo de 15 a 20 anos, mas o computador que escreveu a informação – e ainda poderia resgatá-la – já estará extinto. Por outro lado, a informação existente online é muito frágil e pode desaparecer. Muitos estudos ainda terão que ser feitos nesse sentido, respeitando princípios similares aos dos direitos humanos, mas incorporando conceitos de direito autoral. Preservar a informação eletrônica não é barato. Acervos impressos podem durar séculos mesmo diante de baixos orçamentos, mas apenas uma pequena limitação financeira pode comprometer toda uma biblioteca eletrônica. O progresso digital tem um preço que, nesse caso, pode ser o desaparecimento total da informação.

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Revista Jus Vigilantibus, Segunda-feira, 26 de julho de 2010

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