Ouvi dizer....(educação, emancipação e democracia)
por Helio Estellita Herkenhoff Filho
Quero falar algo diverso do que os livros de auto-ajuda falam, pois dizer o óbvio é ficar na superfície e, na prática, isso não altera o estado de ânimo sentimental e emocional das pessoas; e sem esta motivação “pro vida” não há projeto de felicidade que se sustente. É preciso que os impulsos “pro vida” prevaleçam sobre os impulsos “pro morte”, já dizia o homem que mais estudou a psique humana.
Gosto muito da expressão “ouvi dizer”. Me impulsiona a procurar conhecimento sobre fatos ou teses. Os juízes, contudo, não dão a mínima importância ao relato de testemunha “que ouviu dizer que...”, com a justificativa lógica de que testemunha é quem está presente quando ocorreu o fato histórico, que se pretende fixar como premissa menor (vá lá, mas não sou positivista!) a ser objeto de julgamento por um juiz imparcial (isolado do povo – cargo sagrado ocupado por poucos Deuses, ouvi dizer que tem juiz assim – na cultura do medo não há “olhos nos olhos” em linha horizontal).
Por outro lado, tenho cá minhas dúvidas sobre assuntos sérios; me sinto como um seminarista, ainda longe de se tornar Padre, que verifica que o mal e o bem não são mais que modos diversos de ver certos elementos; essa dicotomia seria, pode-se dizer por analogia, como aquela que envolve ricos e pobres do outro: o foco, em linha de princípio, é a quantidade de dinheiro e o que se faz com a grana, sendo certo que por trás disso existe, vamos dizer assim, uma estrutura psíquica diferente.
Precisamos de uma sociedade mais justa. Isso é óbvio, mas quero dizer que justiça/injustiça é dicotomia que tem em seus conteúdos os mesmos elementos; o modo de se tratar tais elementos é que permite que se diga que algo é justo ou não.
Ouvi dizer que os donos de muitos carros têm colocado aquela película que escurece os vidros do automóvel e que uns dizem que fazem isso para amenizar o calor; que outros dizem que é mais seguro assim, pois evitam-se assaltos à luz do dia.
No meu modo de ver, há uma essência nisso: os que colocam tal película estão se isolando dos outros agentes do trânsito; sequer os parentes mais próximos podem saber exatamente quem está dirigindo certo automóvel.
O isolamento, no meu modo de ver (que é tradição/superação), liga-se à idéia de que cabe só ao motorista ver o outro, sendo irrelevante ser visto pelo outro. Um equivoco que é também cometido por pessoas que ocupam cargos públicos eleitorais, sob a justificativa de que isso é vento a favor da segurança pessoal deles.
O isolamento evita o diálogo e sem dialogo não há como uma pessoa se colocar no lugar da outra para saber a diferença entre elas e, assim, buscar implementar uma liberdade cada vez mais igualitária.
Não há solidariedade sem transparência. Chega a ser desconcertante ouvir dizer que motoristas de carros opacos são indiferentes aos que pedem esmola nas ruas, fazendo alguma demonstração artísticas quando o sinal de trânsito fecha. Parece que o fechamento do sinal de trânsito está sendo usado como uma linguagem em que a comunicação entre o pedinte e o motorista só existe por conta do silêncio, que não deve ser tão silencioso assim.
É preciso cobrar do governo a implementação de políticas assistenciais. Mas isso não deve ser feito apenas por ocasião das eleições. Aliás, é bem provável que sequer nos pleitos eleitorais a cobrança esteja sendo feita, posto que encontram-se no poder as mesmas pessoas. Político virou profissão e isso é um equívoco. O poder, que emana do povo, ouvi dizer, tem sido emanado de modo influenciado pela mídia, que se serve de favores dos que são eleitos.
Por oportuno, ouvi dizer que a minha cidade (sei o que quer dizer minha cidade, mas quero aprender mais), virou um canteiro de obras novamente. Quero falar deste assunto, mas não de modo óbvio. Então, não vou dar relevância ao fato de que as obras realizadas por empresas contratadas pelo governo do Estado estão coincidindo com o ano eleitoral; até por que mesmo o Presidente da república já disse que a oposição ficará tonta de tantas obras que serão inauguradas este ano, um absurdo que apenas os que fecharam a inteligência para o almoço podem suportar.
É preciso retomar. Vitória/ES virou um canteiro de obras novamente. Já escrevi sobre os incômodos que as obras feitas de modo não planejados podem causar aos cidadãos em outra sede, de modo que me calo aqui quanto a isso.
Mas não posso deixar de fazer indagações sobre um fato que ouvi dizer que existe: consta em placas que o governo está fazendo obras, mas que os “incômodos passam e os benefícios ficam”.
Não pude deixar de indagar sobre “os incômodos passam, mas os benefícios ficam”. Ouvi dizer que está escrito assim nas placas localizadas onde estão sendo feitas obras (em todo canto da cidade). Não é possível que esteja escrito: “os incômodos passam e os benefícios ficam”.
Bom supostamente os incômodos seriam causados pelas obras e os benefícios também. Mas não posso me conter apenas isso.
Não acredito que há fogo na Amazônia só por conta de não ter ido lá. Aceito o “ouvi dizer que..”, pois isso me faz buscar conhecimento.
Acredito em Deus e sempre digo para os ateus que a maior prova de que Deus existem são as pessoas que dizem que ele não existe. Faço isso, pois os ateus racionalizam muito. Então, uso o argumento lógico e óbvio que mantém o imobilismo entre eu e eles. Crer não pressupõe conhecer; muito pelo contrário, mas não me parece adequado crer em Deu Pai por conta de medo de ir para o inferno. Sou daqueles que não pretendem dar guarita à cultura do medo, pois os ditadores dela se utilizam para mandar sem legitimidade.
Vitória/ES. As tais placas com a frase “os transtorno passam, mas os benefícios ficam” não saem da minha cabeça (e do coração!).
É preciso dizer que não é bem assim. Os transtorno podem causar acidentes e esses levarem a danos aos cidadãos que não passam de danos. Ficam os danos e, não, o transtorno.
Por outro lado, os benefícios podem até ficar por um tempo, mas não se pode deixar de considerar que depende da qualidade das obras. A experiência comum indica que os benefícios legados a obras públicas são passageiros. Não quero dizer com isso que sou a favor de terceirizar estradas de rodagem, pois aumenta as despesas dos cidadão sem redução de impostos. O que o povo quer é que o dinheiro decorrente dos imposto que incidem até que a cerveja seja bebida com moderação não suma por conta da corrupção.
Não posso me conter. É preciso expressar idéias. Pergunto, agora, considerando aspecto subjetivo: quem são “os transtornos” e quem são “os benefícios”, pois este ficarão, e aqueles passarão. Aliás, passarão para onde?
Ouvi dizer que há uma “teia de poder” que pretende se manter e que a coisa começa em Brasília. Linha e agulha fortes para se manter no poder grupos que se mostram insuspeitos. Apenas se mostra, ouvi dizer..
O Presidente Lula disse que este ano ocorrerão várias inaugurações. Aqui as obras coincidem (vá lá) com o ano eleitoral. Estava tudo parado e agora a banda das obras públicas passam, mas passam para ficar, pois os benefícios inerentes ficam.
A linguagem é a linguagem das coisas. Parece que os políticos não querem aparecer. Mas apenas parece, e isso é óbvio, de modo que com isso não farei o leitor refletir para viabilizar mudanças.
Mas, fica meu grito: pára tudo! Não temos apenas que mudar os nomes das pessoas que ocupam os cargos eleitorais e que tornam os demais cargos, de menor escalão, objetos de partilha para viabilizar o uso do poder sem a participação efetiva do povo.
Chega de usar a frase “os transtornos passam, mas os benefícios ficam”. Isso é enganar o povo por meio de linguagem que objetifica as pessoas, com o intuito de afastar a subjetividade e senso critico quanto à política estatal. É preciso querer mesmo (com coragem e cuidado) a mudança do poder estatal com vista à redução das desigualdades sociais.
O Brasil é rico para poucos e pobre para muitos e isso já é papo antigo, que não deixa de ser atual por conta de governantes populistas incompetentes e que forma grupo organizado para se manterem no poder.
Por oportuno, há pesquisas indicando que os prefeitos que mais investiram em educação não foram reeleitos. Educação é direito de todos; dignifica o homem, tornando-o integro, pois pode viabilizar a crítica. Democracia “mal educada” ou “democracia domestica” não é democracia; é meio de se manter os “donos do poder” no poder.
Não se constrói um Estado democrático sem diálogo franco e inteligente, sendo certo que é preciso destruir a cultura do medo e a idéia de tornar a política profissão de poucos, profissão sagrada que coloca os detentores do poder na posição de Deus.
É preciso dialogo que permita a alteração das coisas em prol de uma liberdade cada vez mais igualitária, continuamente pela evolução das idéias, em ambiente de comunicação que não prime pelo individualismo liberal.
Revista Jus Vigilantibus, Segunda-feira, 1º de março de 2010
Comentários
Ouvi dizer que ler Helio Estellita Herkenhoff Filho é bom para aprender que é possível por meio do direito limitar os excessos da política e da economia.
– Adriana Maia Rodrigues, translation missing: pt, datetime, distance_in_words, almost_x_years atrás.