A destruição do senso comum pela filosofia de Gramsci ( terceira parte)
por Mario Guerreiro
Dos sofistas, não foi difícil chegar a Maquiavel e de Maquiavel, é menos difícil ainda chegar a Karl Marx (1818-1883). O marxismo é uma visão de mundo essencialmente teleológica em que, entendo uma continuidade do mundo natural - regido pelas “leis” da dialética da natureza – ao cultural – regido pelas “leis” do materialismo histórico - tudo convergiria para um único fim: “uma sociedade sem classes e sem Estado”.
Assim é caracterizada por ele a sociedade que emergiria, num passe de mágica, com o fim da sociedade socialista, a ditadura do proletariado que, na prática, segundo Bukharin, foi uma ditadura sobre o proletariado.
É interessante notar como que Marx, sub-repticiamente influenciado pela circularidade da síntese histórica trifásica apresentada na Torah (ou Pentateuco) - a saber: o Paraíso, o Paraíso Perdido e o Paraíso Reconquistado – criou uma síntese histórica pentafásica, a saber: o comunismo primitivo (uma sociedade sem classes e sem Estado), o escravismo (uma sociedade de senhores e escravos), o feudalismo (uma sociedade de senhores feudais e vassalos das glebas), o capitalismo (uma sociedade de burgueses e proletários), o socialismo (uma sociedade da “ditadura do proletariado”, na realidade: a Nomenklatura e o resto).
Finalmente, com o mágico desaparecimento da mencionada ditadura, emergiria a sociedade comunista pós-socialista que, tal como a primitiva, seria uma sociedade sem classes e sem Estado.
O que é isto? Uma visão anárquica utópica em que o Estado, em vez de ser só um mal necessário - como assim era para um liberal como Thomas Paine - é um mal necessário, porém provisório, condenado que está à sua total desaparição na última etapa da história.
Por um lado, isso não passa de uma laicização perversa da Torah (Pentateuco), mas mantendo a circularidade do processo em que o princípio se encontra com o fim. Mas um fim já previsto pelo materialismo histórico e apenas aguardando o inexorável desdobrar no tempo das etapas intermediárias entre as duas sociedades comunistas.
Por outro lado, essa visão circular e determinista da história entra em contradição em diversas passagens em que Marx se volta para a práxis política e faz candentes conclamações à importância da ação revolucionária do proletariado.
Ora, se a história já está predeterminada e se a sociedade comunista pós-socialista é algo inevitável, que relevância pode ter qualquer movimento voltado para sua transformação? S. Kleinberg colocou muito bem essa gritante contradição:
“A explicação marxista da história é, desse modo, vista como um atentado à liberdade – não no sentido político no qual a liberdade é oposta à opressão – mas no sentido de que nossa suposta capacidade de tomar decisões e fazer escolhas transforma-se em uma ilusão. Se o socialismo é de qualquer maneira inevitável, pouca importância tem indagar se é nosso dever trabalhar para alcançá-lo (...).” [S. Kleinberg: Politics and Philosophy. Oxford. Blackwell. 1991].
E mais ainda: Se o socialismo totalitário e sua subseqüente sociedade comunista pós-socialista são ambos inevitáveis, é inteiramente despropositado buscar qualquer relação entre a ação humana e seus meios e fins. Porém, se entendermos - como entendeu o próprio Marx em outras passagens - que a militância política possui uma ação transformadora da sociedade, então todos os meios passam a ficar a serviço de uma única finalidade: trabalhar para a produção de uma sociedade comunista.
Diante dessa portentosa contradição de uma visão determinista e otimista do processo histórico e de uma visão praxiológica apostando na ação da militância política, todo e qualquer marxista coerente ver-se-ia obrigado a fazer uma escolha: optar pela primeira alternativa e se tornar um autêntico hegueliano de esquerda, confiando menos na ação humana do que no inexorável rumo traçado pela razão dialética ou então apostar nos poderes da praxis transformadora e colocar todas as suas fichas na militância política.
Esta última foi justamente a opção de Antonio Gramsci (1891-1937). No entanto, ao contrário de outros marxistas, sua opção pela militância política nunca colocou como finalidade precípua da mesma derrubar a classe dominante mediante as armas, e por isso mesmo seria pejorativamente considerado – desde sua época até o fim da guerra fria – como um “revisionista” ou um “reformista” – termos altamente infamantes usados pelos marxistas-leninistas ortodoxos em relação aos heterodoxos.
Gramsci começou sua nefasta carreira como jornalista. Desde 1913 foi um membro atuante do Partido Socialista Italiano e editor da influente revista L’Ordine Nuovo (A Nova Ordem) desde 1919 e desempenhou um papel de relevo no movimento da fábrica de Turim que ele encarava como “modelo do Estado proletário” durante o Biennio Rosso (Biênio Vermelho) de 1919 a 1920.
Em 1921, ele se tornou membro do Comitê Central do PCI (Partido Comunista Italiano) e no ano seguinte visitou a Rússia na qualidade de representante italiano da Internacional Comunista. Retornou à Itália em 1924 e foi eleito deputado e em 1926 foi preso pela polícia fascista.
Na ocasião, conta-se que Mussolini teria dito: “Devemos impedir este cérebro de funcionar por vinte anos”. Il Duce só não conseguiu realizar seu desejo, porque Gramsci morreu na prisão antes do prazo previsto por ele, em 1937. Mas, na realidade, também não conseguiu impedir que o cérebro de Gramsci funcionasse, pois foi justamente na prisão que ele escreveu seus Cadernos do Cárcere, talvez sua mais influente obra.
Gramsci fez um grande esforço para compreender por que a revolução comunista tinha fracassado no sentido de se expandir fora da União Soviética. De 1928 até 1937 – período em que ele escrevia seus Quaderni del Carcere – a revolução só triunfado na Rússia em 1917.
Houve diversas tentativas nos finais dos anos 1920 e inícios de 1930, mas os comunistas tinham fracassado na Revolução Espanhola com a vitória do caudilho Franco, na Itália com a vitória de Mussolini e na Alemanha com a vitória de Hitler.
Se houve vitórias posteriormente com Mao-Tsê-Tung na China e também na Coréia do Norte e em Cuba, estas foram após a morte de Gramsci em 1937, data esta em que o fascismo já estava consolidado no Poder na Itália e o nazismo na Alemanha.
Além disso, a dissidência entre Leon Trotsty - que defendia a teoria da revolução permanente com a União Soviética levando o comunismo a outros países da Europa – e Josef Stalin que defendia primeiramente a consolidação do comunismo na União Soviética, levou este a expurgar aquele, entre seus muitos expurgos.
E isto fez com que a União Soviética se voltasse para seus problemas internos e pusesse para um segundo plano a idéia da expansão do comunismo, coisa que se fortaleceu com a entrada da União Soviética na Segunda Guerra e sua grande meta em derrotar o nazismo.
Mas a mera preocupação de Gramsci em investigar o fracasso da revolução comunista em países da Europa em que ela tinha sido tentada, revela sua discordância em relação à tese estalinista e sua simpatia pela trotskista.
E ao que tudo indica, Fidel Castro compartilhava esta mesma posição quando, contrariando Moscou que ainda compartilhava a referida tese estalininsta, tentou expandir a revolução cubana enviando Che Guevara para preparar guerrilhas na África.
Revista Jus Vigilantibus, Segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Deixe seu comentário