O jeito verde de ser na Internet
por Maurício de Cunto
Minha intenção em escrever este artigo
não é bombardear o leitor com números, códigos e siglas,
mas dar uma visão de como podemos usar a Internet nos dias de hoje
de uma forma mais rápida e consciente, usando técnicas desenvolvidas
no milênio passado, mas ainda muito atuais, úteis e convenientes.
Eu tive meu primeiro contato oficial
com a Internet em 1994. Eu prestava assessoria e treinamento em uma
empresa multinacional que necessitava ter uma boa comunicação com
as outras filiais e a matriz que ficava na Europa. Certamente não tinha
as regalias de hoje onde qualquer um possui e-mail, conexão de banda
larga e tem ainda à sua disposição Lan houses e Cybercafés em cada
esquina.
Bem antes disso, minhas experiências
de comunicação se baseavam em acessos a outros computadores por intermédio
de um aparelho chamado MODEM, palavra vinda da junção dos sufixos
MO (modulador) e DEM (demodulador). O modem é conectado ao computador
e a uma linha telefônica convencional e sua finalidade é converter
a informação digital existente no computador em sinais acústicos
que são transmitidos pela linha telefônica e vice e versa. Era comum
marcar com um amigo uma conexão à noite onde conversávamos pelo teclado,
trafegávamos arquivos de um computador para o outro, de forma análoga
ao que se faz hoje com máquinas de fax, onde uma pessoa manda um documento
para outra através de uma conexão ponto a ponto. Para se conectar
a mais de uma pessoa ao mesmo tempo, só através de BBSs.
Fui associado de várias BBSs em São
Paulo. Uma empresa de BBS (acrônimo inglês de BULLETIN BOARD SYSTEM)
tem uma estrutura adequada de telecomunicações mais aplicativos específicos
que permitem a ligação (conexão) via telefone a um sistema que através
do seu computador permite a interação com ele, tal como hoje se faz
com a Internet. As BBSs funcionavam como clubes, a gente se inscrevia
e podíamos usá-las por um certo número de horas por mês, dependendo
do pacote contratado. Além de permitir conversa digitada entre os usuários,
troca de arquivos e de programas, era comum encontrar anúncios diversos
de compra e venda, jogar on-line, tirar dúvidas ou ainda consultar
muito material de leitura, tudo em formato de texto. As BBSs eram também
usadas por empresas que precisavam integrar seus funcionários externos.
Com um computador, um modem e um telefone, era possível enviar pedidos
de vendas, relatórios e interagir com os dados da empresa com custos
relativamente baixos. Hoje em dia isso é muito simples com a popularização
da Internet. Tecnicamente falando, não era fácil conectar computadores
ponto a ponto ou ainda usar uma BBS.
Em meados de 1990, mouses ainda não
existiam e um modem de 2.400 BPS (bits por segundo), usado, custava
perto de US$ 1000,00. Só para esclarecer como era a velocidade nesta
época, um modem que se adquire hoje em qualquer loja de informática,
tem velocidade de 56.000 BPS, ou seja, 20 vezes mais rápido e custa
cerca de R$ 30,00. Este modem serve para acessar a Internet por conexão
discada, sabendo-se que é uma conexão bem lenta. Falando em números
de hoje, uma conexão de banda larga de 2 Mega (entenda-se 2 mega bits
por segundo), que muitos reclamam de sua lentidão, é cerca de 50 vezes
mais rápida do que uma conexão discada. Finalizando, minha conexão
em 1990 era cerca de 1000 vezes mais lenta do que minha conexão atual
com a Internet. Através das BBSs o simples envio ou recebimento de
um arquivo de apenas 1 Megabyte poderia levar horas, pois as conexões
caiam com muita freqüência, não permitiam continuar a partir do ponto
da interrupção, nos forçando a reenviar desde o início. Esta tecnologia
não parecia ajudar muito, pois em alguns casos era mais fácil passar
os dados necessários para alguns disquetes e levá-los ao nosso destino
em mãos.
Meu primeiro contato com tecnologias
da Internet e a elaboração de um site foi em meados de 1996 e a conexão
disponível na época, na empresa que trabalhava, tinha cerca de 64
KBPS (64.000 bits por segundo) e ainda era compartilhada com cerca de
50 usuários. Não preciso dizer o quanto as coisas eram realmente lentas
na época. Uma das minhas tarefas era produzir material eletrônico
de treinamento para os funcionários e precisávamos fazer alguma coisa
para que a informação fluísse bem. Esta conexão, apesar de lenta,
era muito mais rápida do que nossas conexões domésticas na época
e criar tecnologia inovadora para Internet nos dava um imenso prazer.
Tudo era novidade, tudo era desafiador, tudo era muito excitante, mas
tinha que funcionar. Sabíamos das limitações da tecnologia, mas meus
alunos que esperavam por material eletrônico de treinamento, não podiam
sofrer com a espera da abertura de uma página na web. A solução foi
criar sites simples com linguagem de programação HTML (HyperText Markup
Language, que significa Linguagem de Marcação de Hipertexto) e imagens
muito leves no formato JPG e GIF.
A linguagem HTML, criada pelo inglês
Timothy Berners-Lee nos anos 90, é naturalmente leve e se adapta muito
bem em qualquer velocidade da rede. Esta linguagem é desprovida de
uma estética refinada e de recursos visuais, é muito técnica e força
aos atuais programadores, designers e demais criadores de sites a buscar
outras linguagens mais simples de implementar e que ofereçam soluções
mais dinâmicas e mais bonitas. Nos dias de hoje, existem programas
que criam sites em HTML, porém o código gerado é geralmente muito
pesado o que acarreta em demora na abertura e interpretação da página
pelo computador do internauta que está acessando o site.
Quanto ao aspecto gráfico, hoje é difícil
encontrar um site que não tenha logotipos, faixas, fotos e demais recursos
audiovisuais. O abuso do grafismo causa uma lentidão natural e para
resolver esta questão a solução adotada mais comum é contratar conexões
com a Internet cada vez maiores. Sem entrar em muitos detalhes, imagens
e fotos podem ser tratadas e tornarem-se leves sem comprometer a eficácia
e o visual de um site, mas esta é uma prática em desuso.
Os mesmos problemas ocorrem nas comunicações
pessoais via e-mails onde a prática de anexar arquivos grandes se tornou
um hábito cada vez mais difícil de se solucionar. Mas isto é um assunto
para outro artigo.
Os sites que fiz e que administro são
simples e foram criados segundo técnicas clássicas de construção.
Todos fornecem as informações que os internautas esperam receber,
com grande objetividade. Certamente gosto e admiro o visual dos sites
modernos, das inclusões de vídeo e de movimentos, mas ainda prefiro
que meus sites forneçam informação da forma rápida, simples e direta.
Na hora de você criar o seu, lembre-se que mais de 90% da população
brasileira não tem banda larga.
-x-x-x-
Prof. Maurício de Cunto é graduado em engenharia eletrônica (Mackenzie), pós-graduado em engenharia de telecomunicações (FAAP) e trabalha com perícia em áudio, vídeo, imagem, documentos, arquivos digitais e Internet.
Revista Jus Vigilantibus, Quinta-feira, 22 de outubro de 2009
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