Crise atual: repetição cíclica das crises de 30 e 70
por Ricardo Bergamini
As finanças internacionais são
um jogo com dois grupos de jogadores - os políticos e burocratas nos
governos nacionais e os presidentes e tesoureiros das firmas gigantescas,
grandes, médias e pequenas. Os funcionários do governo desejam vencer eleições
e garantir um lugar seguro na história dos seus países. Os presidentes e
tesoureiros das sociedades anônimas querem auferir lucros - ou pelo menos
evitar perdas –.
As oportunidades de lucro ocorrem porque as
políticas monetárias e fiscais nacionais são inconsistentes entre si e, assim,
obrigam a uma mudança nos valores da moeda nacional. Mas as autoridades nos
diferentes países, normalmente, discordam quanto a qual país tomará a
iniciativa em mudar o preço da moeda nacional, de modo que a mudança necessária,
freqüentemente, se atrasa muito. As fortunas comerciais são feitas com base na
capacidade de prever tais mudanças nos valores das moedas nacionais, ao passo
que os políticos se desgastam com o resultado dessas mudanças.
A exportação de problemas nacionais, nos países
desenvolvidos, é uma forma clássica de comportamento internacional. Votos
estrangeiros não contam em eleições nacionais. Os custos políticos de
providências internas que poderiam resolver um problema de desemprego, um
problema de inflação ou um problema de indústria deprimida,
normalmente, são mais altos que os custos políticos da exportação do problema.
Assim o resto do mundo subdesenvolvido se transforma em escoadouro de problemas
internos dos países desenvolvidos.
A política monetária internacional é
descentralizada. Cada um dos mais de cem produtores nacionais de moeda tem seus
próprios interesses e objetivos. Cada banco central quer controlar a taxa de
crescimento, do seu meio circulante, as políticas dos países diferem, o mesmo
acontece com suas taxas preferidas de crescimento monetário.
As firmas e os indivíduos disputam seu próprio
jogo contra o pano de fundo dos valores em modificação das moedas nacionais.
Tomam empréstimos em moedas cujo preço esperam que caia
e fazem empréstimo em moedas que esperam que subam. Alguns administradores
argutos de sociedades anônimas ganharam milhões de dólares - marcos alemães e
francos suíços - para suas empresas em fins dos anos 60 e começos dos anos 70
antecipando, corretamente, as mudanças nas taxas de câmbio.
Os governos, freqüentemente, precisam de um
acordo internacional para rever instituições estabelecidas e renegociações
desses acordos demoram anos e, hoje em dia, graças à comunicação instantânea e
de baixo custo, os mercados nacionais de moedas, títulos, depósitos e ações
denominados em várias moedas aproximam-se muito de serem partes de um mercado
internacional. Em qualquer momento determinado, o preço das ações da IBM em
Amsterdã e o preço das mesmas ações em Londres - e em centros estrangeiros onde
elas são negociadas - só diferem em centavos do preço de Nova York. Os
corretores de bolsas especializados compram essas ações onde elas são baratas e
as vendem onde são caras, para lucrar com a diferença de preços e, assim,
manter os preços. A tecnologia da moeda é internacional.
Antes da Primeira Guerra Mundial o sistema era
descrito como "padrão ouro". Então, uma mudança de conceito levou a
uma mudança no nome e "padrão câmbio ouro" tornou-se o termo
aplicável para a situação entre as duas partes, pelo menos de 1946 a 1971, ele
ficou conhecido como o Sistema de Bretton Woods. Essas mudanças em terminologia eram mais que
mudanças na aparência, pois a relação sistêmica entre os componentes principais
e os mecanismos para determinar as taxas de câmbio e fornecer o dinheiro para
usar em pagamentos entre bancos centrais em diferentes países - também foi
reformulado.
Normalmente, as mudanças no sistema têm sido
precipitadas em uma crise sobre os valores relativos das diferentes moedas
nacionais. Isso ocorre quando os arranjos estabelecidos para financiar
desequilíbrios de pagamento entram
Os bancos centrais precisam de uma moeda
internacional. Então, dada essa necessidade, cada banco central tem de decidir
qual ativo tem as combinações de atributos mais atraentes na forma de renda de
juro, futuro poder aquisitivo, custos de transação e custos de armazenagem. Até
1970, os estoques de ouro eram o maior componente de moeda internacional.
Então, o aumento nos estoques externos de dólares americanos deslocou o ouro
para segundo lugar, tendo dobrado essa relação apenas no período de 1970 a
1971. E a terceira forma de moeda internacional é o DES (direito especial de
saques) do FMI.
Durante muito tempo, pareceu que os ativos em
dólares americanos tinham mais probabilidades de continuar aceitáveis e manter
valor do que os ativos denominados em outras moedas correntes. Dólares podem
ser usados para comprar bens e valores mobiliários americanos. Os Estados
Unidos têm uma economia grande e produtiva, militarmente seguros e
politicamente estáveis. E o dólar tem um recorde de tempo em manter seu poder
aquisitivo. Paradoxalmente, à medida que os estoques de ativos em dólares
aumentavam, os países tornavam-se mais relutantes em adquirir mais ativos em
dólares, em parte porque a capacidade do Tesouro dos Estados Unidos de
converter todos esses ativos em ouro estava ficando cada vez mais duvidosa. O
aumento em estoques estrangeiros de dólares em 1971, atribuível à especulação
sobre uma desvalorização já por demais atrasada,
significou que muitos bancos centrais estrangeiros adquiriram mais ativos em
dólares do desejado.
Assim, reapareceu a escassez de moeda
internacional, pois os bancos relutavam em adquirir mais ativos
Por volta de 1965, o Governo americano começou a
reconhecer que seu déficit no balanço de pagamentos poderia ser mais bem
explicado em termos da procura externa de moeda internacional do que a
supervalorização do dólar. Ele passou a compreender que novos arranjos
institucionais tinham de ser criados e que satisfizessem a
procura externa de moeda internacional sem forçar os Estados Unidos a incorrer
A partir de 1969 até o fim de 1971, a questão
subjacente era se os Estados Unidos tomariam a iniciativa de reduzir seu
déficit ou, se países europeus e o Japão tomariam a iniciativa de reduzir seus
superávits. A Alemanha revalorizou o marco em
setembro de 1969. O Canadá retornou a uma taxa flutuante em abril de 1970. Pelo
final de 1970 e começos de 1971, a pressão especulativa contra o dólar começou
a aumentar à medida que se tornava cada vez mais provável que as moedas
européias e o iene japonês aumentassem de preço em termos do dólar. O que não
estava claro era quando a mudança ocorreria e que países tomariam a iniciativa.
Em maio de 1971, a pressão especulativa contra
os Estados Unidos aumentou ainda mais; a Alemanha e a Holanda seguiram o
exemplo canadense, e passaram para uma taxa flutuante, enquanto a Suíça e a
Áustria revalorizaram suas moedas em cerca de 5%. Mas
os especuladores não se acalmaram e, a pressão contra o dólar aumentou ainda
mais. Passados 3 meses, a especulação desviou bilhões
e bilhões de dólares para ienes, marcos, francos suíços, libras, etc.
A crise tornou-se crítica no começo de agosto de
1971, assim sendo em 15 de agosto o Presidente Nixon anunciou que, como parte
da sua Nova Política, o Tesouro suspenderia as vendas e compras de ouro. Como o
Tesouro dos Estados Unidos não tinha certeza que outros países revalorizariam suas moedas, o governo impôs uma sobretaxa
de 10% às importações. E as autoridades monetárias americana deixaram claro que
a sobretaxa permaneceria em vigor até que a estrutura das taxas cambiais fossem
realinhadas, e as barreiras discriminatórias contra
as exportações americanas fossem reduzidas, bem como exigindo da Europa e do
Japão iniciar negociações para estudar um novo sistema internacional. Os
europeus e japoneses pararam de fixar suas moedas em termos do dólar e elas
começaram a subir de preço em termos do dólar. As autoridades americanas
estavam satisfeitas com o sistema de taxa flutuante; à pressão para retornar
aos sistemas de taxas administrada - e eliminar a
sobretaxa tarifária dos Estados Unidos - partiu do exterior.
A suspensão das vendas de ouro americano era
inevitável; a sobretaxa de 10% não era. Esta foi cobrada num período em que a
maioria dos países estava numa recessão - e, como aconteceu nos anos 30, esses
países consideram atraente importar empregos
aumentando suas exportações de bens. Mas eles só poderiam fazer isso mantendo
uma moeda desvalorizada. Em seu primeiro teste, em vinte anos, para impedir
políticas de “empobrece teu vizinho”, o Sistema de Bretton
Woods falhou, como podemos observar com as crises nos
mercados cambiais, é que elas ocorrem pelo desejo de muitos países de adotar
políticas monetárias independentes, bem como pelas regras do FMI para
regulamentar as taxas de cambio serem arcaicas.
As mudanças nos sistemas institucionais ocorrem
lentamente, sobretudo quando o número de participantes é grande e seus
interesses são diversos. As mudanças no sistema cambial são inevitáveis, pois o
sistema existente é obsoleto num mundo de políticas monetárias nacionais
independentes. Número cada vez maior de especuladores é sagaz em obter lucros
de revalorização. Os sistemas existentes também estão mal equilibrados; os
banqueiros centrais continuam jogando de acordo com regras
que vão contra os interesses dos seus proprietários, a mudança é
inevitável - a única incerteza é quando ela ocorrerá.
Para o aprendizado de Política Monetária
Internacional devemos entender o que seja Moeda: A indústria de dinheiro é como
a indústria de refrigerantes ou de qualquer indústria. Na indústria do
dinheiro, tal como na dos refrigerantes, ocorre superprodução. Nesta última,
qualquer firma que aumente sua produção com muita rapidez talvez tenha que
reduzir seus preços para não ver suas latas e garrafas encalhadas nas
prateleiras dos supermercados. No caso do dinheiro, a superprodução leva aos
aumentos nos preços, pois os bancos centrais podem produzir o dinheiro, mas não
podem obrigar os agentes econômicos a guardá-lo. Assim, quando se produz
dinheiro demais, as pessoas podem passar da moeda nacional para os bens - ou
para outras marcas de dinheiro.
O Contraste entre o número de marcas de fábricas
de dinheiro- mais de cem - e de fábricas de produtos (automóveis, aviões a
jato, etc.) é enorme. Enquanto todos os países, excetuando-se alguns pequenos,
têm sua marca de moeda, a maioria importa seus computadores, aviões a jato e
outros produtos. Então por que quase todos os países insistem em produzir seu
próprio dinheiro? Uma razão pode ser a de que ninguém vê qualquer custo em ter
uma moeda nacional. Mas, para a maioria dos países, sem controles monetários
rígidos, a decisão de ter uma moeda nacional eleva a taxa de juro dos seus
empréstimos internos, além do custo de produção da moeda que é altíssimo.
Assim, é claro que o fato de alguns países terem uma moeda nacional coloca as
firmas nesses países em desvantagens de custos no mercado internacional, pois
os investidores interessados em futuras mudanças nas taxas de câmbio exigirão
uma taxa de juros mais alta para estocar ativos denominados na moeda nacional.
Na medida em que as taxas de juros mais altas cobradas são um
resultado da existência de uma moeda nacional, existe um custo real para
esses países, pois alguns projetos de investimentos que poderiam ser empreendidos
lucrativos, se as taxas de juros fossem mais baixas, nunca serão realizados. Os
governos lucram tendo uma moeda nacional, pois o custo da produção do dinheiro
- imprimir as notas bancárias ou emitir os depósitos - é inferior ao seu poder
aquisitivo em termos de bens e serviços. Esses lucros da produção de dinheiro
são uma formas indireta de tributação Na verdade, a
emissão de dinheiro, muitas vezes, é um modo menos dispendioso de tributar o
público, especialmente, se o aparelho administrativo fiscal é inadequado ou
corrupto Este também é um modo de evitar oposição parlamentar a impostos mais
altos Os juros mais altos do mercado financeiro são o equivalente da redução de
preços no mercado de refrigerante.
Desde 1971, as transações externas maiores e de
crescimento mais rápido envolvem a produção de depósitos bancários em dólares
em Londres, Zurique e outros centros fora dos Estados Unidos, o termo genérico
para todas essas transações é o "mercado monetário externo, ou
eurodólar".
Os bancos fora dos Estados Unidos emitem
depósitos em dólares em resposta à procura do investidor. O dólar é uma unidade
de conta - um dos padrões do mundo do dinheiro, uma medida comparável ao litro
ou ao metro - esses depósitos não são dólares americanos e estão fora da jurisdição
legal dos Estados Unidos. Nos Estados Unidos os regulamentos do "FED"
estipulam que os bancos comerciais não podem pagar juros sobre depósitos à
vista (o teto é zero), o "FED" também fixa tetos de juros sobre
depósitos a prazo fixo e poupanças, além do que estabelece percentuais de
depósito compulsórios (não remunerados) sobre os depósitos bancários.
Não há mistério na produção de depósitos
A reforma do sistema monetário internacional
poderia ser realizada com mudanças em alguns poucos acordos importantes.
Formulando assim, o problema da reforma não parece muito difícil, porém na
prática é muito complicado, tendo em vista que os - OS BANCOS CENTRAIS LÊEM
RESULTADOS DE ELEIÇÕES E NÃO BALANCETES -, pois o que cada Governo nacional
quer saber é como os acordos propostos afetarão sua capacidade de alcançar seus
próprios objetivos nacionais - pleno emprego, um nível de preço estável,
crescimento rápido, maiores lucros comerciais e mais exportações. Qualquer
governo assinaria prontamente um acordo para a reforma monetária internacional
se lhe permitissem redigi-lo, escolher a administração da instituição e
formular suas políticas. Os líderes políticos falam sobre as virtudes da “COOPERAÇÃO INTERNACIONAL, mas os fatores internos freqüentemente
merecem a prioridade, especialmente quando a próxima eleição será daí a alguns
meses. A reforma monetária internacional tem um eleitorado limitado.
Como regra geral, quanto mais poderosa a burocracia, menor o campo de ação para
decisões orientadas para o mercado. A burocracia afeta as decisões de várias
maneiras - pelo controle da distribuição de credito, imposto, obras,
investimentos, importação, etc. É evidente que movimentos para uma economia
mais aberta tenderão a enfraquecer o controle burocrático e, assim, ameaçam o
futuro da burocracia.
Atualmente precisa-se de um novo sistema para
substituir os acordos de Bretton Woods.
Precisa-se de novos regulamentos para mudar as paridade
cambiais e é preciso encontrar um novo mecanismo para produzir moeda
internacional. As funções internacionais - se houver - do ouro e do dólar no
sistema têm de ser definidas.
Revista Jus Vigilantibus, Sabado, 27 de setembro de 2008