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Estranho relatório da inteligência

Quem acompanha, mesmo como amador, a política internacional deve ter estranhado o relatório unânime e recentíssimo das agências de inteligência americanas, divulgado no dia 3-12-07. Esse relatório nega frontalmente o que diziam anteriormente. Afirma que não foi encontrado, no Irã, qualquer programa ou material nuclear que represente ameaça iminente de construção de armas nucleares. O leitor deve ter estranhado, mais ainda, a insistência de George W. Bush, afirmando, posteriormente, que, correta ou não a conclusão do relatório, o programa nuclear iraniano representa um perigo. Diz, com sua lógica toda peculiar, que se Teerã ainda não está fazendo a bomba, um dia poderá fazê-la. Com base nessa preventiva desconfiança, insiste no aumento de sanções contra aquele país. O curioso é que o presidente francês e a chanceler alemão apóiam Bush e viram as costas ao relatório.

Hans Blix, diplomata respeitadíssimo, ex-chefe dos inspetores de armas da ONU, também mostrou-se “extremamente surpreso” com o tal relatório, não obstante este coincida com seu ponto de vista. Blix é contrário a qualquer sanção militar contra Teerã, o próximo e perigoso passo que Bush ameaçou dar contra o regime iraniano. Blix, segundo a imprensa, quer saber com que fundamentos os agentes chegaram às conclusões do relatório.. Impressionou-se com a súbita “reviravolta”.

Mesmo correndo-se o risco de parecer desconfiado e malicioso, é altamente provável que foi o próprio presidente americano quem estimulou e orientou o relatório de suas agências de inteligência no sentido de afirmar, por escrito, que não há qualquer sinal concreto, atual, de que o Irã disponha de tecnologia capaz de fabricar armas nucleares.

Por que Bush faria isso? Para não se desmoralizar. Esquecido, porém, de que insistindo, aparentemente, em atacar orelatório, acaba transmitindo a impressão de que age irracionalmente. Tendo prometido duras medidas militares contra as instalações nucleares iranianas — “nenhuma opção está descartada...” —, caso Teerã não cessasse seu desenvolvimento nuclear, e não tendo o governo iraniano se intimidado — pelo contrário continuou desafiando a ameaça — ficaria “feio”, desmoralizante, não cumprir a ameaça. A menos que...

Não lhe agradaria a personificação do provérbio de que “cão que late não morde”. Daí a “saída honrosa”: não atacará o Irã “apenas” porque suas próprias agências de informação, melhor examinando o assunto, concluíram que não há prova de que aquele país tenha projetos de armas atômicas. Não que ele, Bush, não tenha coragem de atacar o Irã, com ou sem apoio do Conselho de Segurança; tanto assim que continua com a opinião pessoal de que o Irã representa um perigo. Questão apenas de hombridade.

“Coragem eu tenho” — ele quis significar —, “mas não posso fazer, isso coerentemente, porque minhas própria agências admitem que erraram antes, nas informações que me passaram. Em suma, eu, Bush, não cumpro minha promessa de bombardear as instalações nucleares iranianas porque tal promessa apoiava-se em falsos pressupostos. Enfim, não há receio ou hesitação de minha parte, mas sim coerência”.

Essa a explicação, Sr. Hans Blix, para a súbita guinada. Seria altamente inconveniente, para os EUA, iniciar novo conflito, atacando o Irã, com isso despertando a solidariedade do Oriente Médio, principal fornecedor de petróleo. O povo americano não toleraria essa nova asneira. A nação americana deseja seus soldados de volta do Iraque. Não quer novas mortes e aleijões na sua juventude. E isso ocorreria provavelmente em escala maior do que a existente no Iraque e Afeganistão juntos, caso houvesse uma guerra contra o Irã. No fundo, Bush dá dois “graças a Deus”. O primeiro, pela negativa do Conselho de Segurança em apoiar, por unanimidade, um ataque militar. O segundo, pela opinião negativa do “surpreendente” — não para Bush — relatório. Certamente, daqui a algum tempo, Blix encontrará a mesma explicação, aqui aventada, para o aparecimento do relatório. Seria realmente estranhável que as obedientes agências de inteligência do presidente americano publicassem algo contrariando abertamente os argumentos do chefe da nação. Isso só pode ter acontecido por ordem de um presidente que não queria se desprestigiar, voltando atrás sem uma respeitável justificativa.

Melhor, porém, essa “saída honrosa”, embora de difícil credibilidade, que um novo conflito no Oriente Médio. Desta vez com repercussões muito mais graves, e não só naquela parte do planeta. O petróleo iraquiano é necessário não apenas aos EUA. Humana, porém, foi a reação de Sarkozy e Merkel, fingindo acreditarem que Bush estava firmemente determinado a atacar o Irã, sendo impedido apenas por questão de coerência. Esse apoio, provavelmente apenas vocal, mostra que ainda há solidariedade entre alguns governantes.

Um bom conselho a Blix é que — também por solidariedade humana —, não examine o tal relatório muito a fundo, porque ninguém deve ser submetido a vexame prolongado se sua decisão final foi a mais acertada, seja qual for o seu fundamento real.

Finalmente, seria mais simpático, internacionalmente, se o presidente iraniano não festejasse ruidosamente, uma “vitória” espalhafatosa, para a qual em nada contribuiu.

Revista Jus Vigilantibus, Sabado, 8 de dezembro de 2007