Economia Excludente. Vivemos num país em que “milhões de pessoas não conseguem ter acesso a seus direitos”

O principal papel do Estado é o da promoção do bem comum a todos, sem exclusão. Para tanto há que subordinar a atividade econômica ao atendimento dos interesses gerais de todos os cidadãos, sem exclusão, diferentemente do que pratica o “deus mercado”, de ideologia neoliberal que se assenta na idéia de "menos Estado, melhor Estado”.

O Estado que os cidadãos precisam é o que promova a inclusão de todos, buscando-se a empregabilidade em que o homem seja sujeito de direitos e não mera mercadoria descartável, com garantias efetivas da dignidade da pessoa humana, com salários dignos e garantia de trabalho num meio ambiente equilibrado, sem os riscos dos infortúnios laborais costumeiros, por falta de investimento em prevenção, já que o modelo se preocupa apenas com a maior produtividade, lucratividade e ao menor custo operacional possível, como temos concluído em nossos artigos, dentre os quais os que podem ser lidos nos links seguintes:

www.fazer.com.br/a2_default2.asp?cod_materia=2301

www.fazer.com.br/a2_default2.asp?cod_materia=2299

jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=3321

conjur.estadao.com.br/static/text/23760,1

jusvi.com/colaboradores/artigos/67

Examinando o modelo econômico neoliberal em que o Estado já perdeu sua capacidade de intervenção na economia, mormente devido às privatizações, permitindo que os interesses prevalentes do lucro regulem a própria economia, a ensaísta argentina da ensaísta Beatriz Sarlo examinando esse quadro de tantas tragédias e aflições provocadas por um modelo desumano e “englobalizante” nos dá o retrato do verdadeiro retrocesso social que vem ocorrendo, com as flexibilizações e precarizações trabalhistas, nesse modelo econômico mundialmente glogalizado que pretende trabalhar apenas com 20% de seus cidadãos em cada País, deixando os demais 80% de cidadãos restantes num mundo de exclusão, desilusão, aflição e desesperança:

- Vivemos num país em que “milhões de pessoas não conseguem ter acesso a seus direitos”.
- A pobreza da periferia de grandes cidades, documentando o quadro tétrico de “crianças adormecidas pela fome, bebês catatônicos, velhos enlouquecidos pelas privações enclausurados na obsessão de sua miséria, corpos curvados de homens jovens rejeitados por um mercado que não precisa mais deles.
- A violência, a ruptura de todos os laços sociais, a selvageria da droga são desafios vistos como se fossem a única afirmação possível da identidade.
- A contemplação de um oceano de mazelas em que nosso povo foi abandonado pela incúria da maioria dos dirigentes políticos.

Leia mais.

Jornal O Estado do Paraná, edição de 23.06.2007, caderno opinião.

A fisiologia totalitária

Opinião [23/06/2007]

Ivan Schmidt

Vivemos num país em que “milhões de pessoas não conseguem ter acesso a seus direitos”. As palavras entre aspas são de autoria da ensaísta Beatriz Sarlo e referem-se, no contexto original, à Argentina, onde nasceu. Mas essas palavras se amoldam de forma tão estrita à realidade brasileira, a ponto de se duvidar da vantagem de continuar contando tantas piadas de mau gosto sobre “los hermanos” do Rio da Prata - como se fazia antes com os portugueses - à medida que se contempla o oceano de mazelas em que nosso povo foi abandonado pela incúria da maioria dos dirigentes políticos.
Descrevendo a pobreza da periferia de grandes cidades argentinas, como se estivesse a flanar por Curitiba ou outra capital qualquer, Beatriz documentou o quadro tétrico de “crianças adormecidas pela fome, bebês catatônicos, velhos enlouquecidos pelas privações enclausurados na obsessão de sua miséria, corpos curvados de homens jovens rejeitados por um mercado que não precisa mais deles”.
Mulheres de trinta anos, oito filhos e um marido desempregado ou preso, por isso, parecendo tão “velhas”, com os corpos aniquilados pelo pesado ônus de uma dívida que jamais será paga: “A violência, a ruptura de todos os laços sociais, a selvageria da droga são desafios vistos como se fossem a única afirmação possível da identidade”. Para os que desejam saber mais sobre a obra da pensadora, recomenda-se a urgente leitura de Tempo Presente (José Olympio, RJ, 2005), onde se depara com o retrato sem retoques duma nação perdida nos labirintos da extrema pobreza. E, pior, espelho implacável em que o Brasil poderá vislumbrar a própria máscara.
Enquanto a barbárie da miséria derruba milhões, dirigentes políticos ensandecidos reivindicam uma relevância imerecida e fingem não perceber a crueldade da guerra que dizima o que Beatriz Sarlo denomina de sujeito coletivo. Alguns desses personagens sinistros, na falta de vocabulário para convencer a massa, se esmeram no tom lamuriento de carneiros imolados sobre a pira das patranhas debitadas a certa imprensa que serve de instrumento à manipulação burguesa. Ou, talvez, por terem sido privados da pseudo-sapiência advinda da leitura de pesquisas de opinião, espécie de “mapa de um território que antes acreditavam conhecer porque o povo definia seus limites e sua fisionomia”. É passado o tempo em que político “lia” a pesquisa e acreditava saber o que a massa pensava.
Assim como está carcomido pelo uso infame que dele tantos fizeram ao longo da História, o culto à personalidade, na verdade, um desejo de poder que ainda atormenta espíritos mortalmente quebrantados pela indiferença popular. Escreveu Tzvetan Todorov que “o culto à personalidade não caiu do céu nem se reproduziu por acaso em todos os países comunistas”. E sabia do que estava falando, porquanto natural da Bulgária viu-se compelido a buscar asilo na França para fugir da escravização das consciências, imposta pela Cortina de Ferro formada no imediato pós-guerra.
Não foi sem razão que perenizou suas impressões no livro a que deu o título sugestivo de O homem desenraizado (Record, RJ, 1999), no qual discorre sobre a fisiologia mesma do totalitarismo de Estado, peçonha que subjugou e continua subjugando indivíduos deformados pela megalomania. Diz ele: “O Estado totalitário não admite nenhuma pluralidade de opiniões; qualquer desacordo era então passível de esmagamento”. Infelizmente, há indivíduos picados pelo mesmo inseto em contextos e longitudes diversos.
É forçoso recorrer a outro estudioso da matéria para assimilar as razões que levam um homem a agir de modo tão estúpido. Trata-se do filósofo francês Raymond Aron, já falecido, que rastreou a ascensão de Stalin no mundo comunista, no período chamado de Grande Mentira, no qual o arbítrio do “guia genial dos povos” se arraigou de tal forma que ele se arrogava o direito de decidir qual era a interpretação correta do marxismo. “O estilo do regime foi determinado pela personalidade de Stalin, ao mesmo tempo medíocre e monstruosa”, escreveu Aron para concluir que mesmo o conceito de Lênin sobre o “centralismo democrático” foi completamente desvirtuado pelo irascível ditador.
Em compensação, a lucidez expositiva de Aron nos fornece a chave onde encerrar os equívocos da emulação tacanha de proscritos como foi Stalin: “Um déspota adorado em público e odiado em particular”.
Ivan Schmidt é jornalista.
Link: www.parana-online.com.br/noticias/index.php?op=ver&ano=temp&id=288360&caderno=13

Revista Jus Vigilantibus, Segunda-feira, 25 de junho de 2007