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O indivíduo e as variantes de sua representação social: heterônimo, pseudônimo, nome artístico ou religioso

Como segmento da lingüística, e sendo ramo principal da onomástica, a antroponímia é o estudo dos antropônimos, noutras palavras, dos nomes próprios dos indivíduos. Tendo o vocábulo sido criado a partir do grego “anthropos” = homem + ” onomatos “nome; Assim, em 1887, o filólogo português, José Leite de Vasconcelos1 , criou este termo para designar este estudo dirigido unicamente aos nomes. E, deste estudo, extraímos o conceito de que “nome” é a composição de vocábulos que utilizamos para identificar pessoas.

E, neste contexto, temos não só os prenomes, mas, também os sobrenomes (termo que não é encontrado na legislação, embora, de uso tão comum), apelidos de família, ou nomes de família, ou ainda, patronímicos, observando que, este último não é sinônimo dos demais, no que se refere à designação e significado. Pois, patronímico, é uma espécie de sobrenome, que necessariamente, é indicativo do nome paterno. De origem também grega “patronymykós” – “pater” = pai + “omina” = nome, ou seja, nome do pai.

De tal modo, patronímicos são apelidos de família ou sobrenomes que expressam a derivação ou repetição do prenome paterno, que hereditariamente se adquiri dos antepassados, dos ancestrais. Denominado como avoengo, quando hereditário do avô, e matronímico, quando advindo da mãe. Não obstante, cabe lembrar, que o apelido de família tem sempre esta característica de hereditariedade, diferente somente, em isoladas exceções. Simplificando, serve à identificação dos indivíduos de um mesmo clã, e conseqüentemente, na distinção destes clãs familiares dentro das comunidades.

Sendo uma representação da filiação, compõe a segunda parte do nome civil, aquela posterior ao prenome, cuja aquisição provém pelo nascimento, ou por atos jurídicos, como é o caso da adoção ou casamento, ou ainda, como resultado de união estável, mas, quaisquer que sejam as vias, ele será sempre a representação do elo que revela a procedência do indivíduo.

Os nomes de família, no decorrer dos séculos, se compuseram por diversas maneiras, pesquisas demonstram que remontam cerca de cinco mil anos, tendo inclusive, relatos bíblicos, que fazem menção. É exemplo, o episódio em que o Senhor ordenou a Moisés, no Monte Sinai, que fizesse o recenseamento dos filhos de Israel após a saída do Egito, e os povos estavam divididos em tribos, e a cada uma das tribos foi dado o nome de seu patriarca, e conseqüentemente, cada um de seus integrantes, passaram a utilizar o nome da tribo somado ao prenome, que na função de sobrenome, servia para sua distinção com relação aos demais advindos de outras tribos.2

Cumpre dizer que, o universo do “nome” é muito amplo, e quanto mais nos aprofundamos, novas questões vão surgindo, abrigando-nos a dissertar sobre elas. Eis uma destas novas questões, o Heterônimo.

No decorrer de nossas pesquisas descobrimos e pudemos ainda entender que o “heterônimo” não é só um outro nome, que segundo o dicionário “Silveira Bueno – da Língua Portuguesa”, significa: Diz-se da obra que se publica sob o nome real ou suposto de outra pessoa. Contudo, não é só isto. Porque não se restringe tão-só a outro nome, mas, atrás deste outro nome existe latente uma outra personalidade de seu criador. Noutras palavras, o heterônimo é um personagem com personalidade, vivência e história, criado por um artista, e com nome próprio para assinar as obras, que embora sejam também feitas por ele, encontram sua adequação em estilo, forma estética e argumento diante das características desta outra pessoa, seu heterônimo.

Ninguém criou mais heterônimos que Fernando Pessoa3 , ou seja, criou personalidades diversas e distintas da própria, para que pudesse com isto, dar vazão a sua obra. Seu primeiro heterônimo foi criado em 1894 sob o nome civil de Chevalier de Pás; em 1899 cria o inglês Alexander Search; em 1914 cria outros três: Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro.

O mais importante dizer, é que segundo Fernando Pessoa seus heterônimos tinham vida, tinham memórias, eram como indivíduos dele mesmo, vejamos:Ricardo Reis nasceu na cidade do Porto, a 19 de setembro de 1887. Estudou em colégio de jesuítas, formando-se em Medicina; politicamente, defendia a Monarquia, e por isto, se expatriou espontaneamente, para o Brasil em 1919. Era estudioso da cultura clássica, o que equivale a dizer: de latim, grego, mitologia etc.; Os poemas de Ricardo Reis foram escritos com uma linguagem contida e disciplinados, com versos puros. Há uma grande preocupação métrica, já que Ricardo representa o lado clássico/neoclássico de Pessoa. Racionalista e pagão, poderia ser confundido com poetas do Arcadismo.

Alberto Caeiro da Silva nasceu em Lisboa, a 16 de abril de 1889, e morreu em 1915. Órfão de pai e mãe, viveu com uma tia, no campo. Só teve instrução primária e, por isso mesmo, escrevia mal o português, mas, pensava com os sentidos; era uma pessoa muito frágil, apesar de ter uma estatura média, e morreu jovem, de tuberculose. Caeiro era uma pessoa tranqüila e sábia, além de ser considerado o mestre dos outros heterônimos e do próprio Fernando Pessoa.

Álvaro de Campos nasceu em Tavira (extremo Sul de Portugal), em 15 de outubro de 1890. Era engenheiro naval, mas tornou-se inativo desde que mudou para Lisboa. Estudou engenharia, tanto mecânica quanto naval, na Escócia. Aprendeu latim com um tio que era padre. Em uma viagem ao Oriente, escreveu um de seus poemas mais famosos, "Opiário".Esse heterônimo foi influenciado pelo Futurismo, e é conhecido como um amante da civilização e do progresso, um observador crítico do mundo e de si próprio, que se angustia facilmente com o tempo que passa sem parar. Seus poemas se caracterizam pela assimetria, pelo caos e pela pontuação desordenada.
Por estas breves exposições podemos entender que há mais que um simples nome a compor um heterônimo, há traços de caráter e de personalidade, capazes inclusive, que nortear o criador.

A segunda questão por nós abordada neste tópico, é a do “pseudônimo”, que é um nome civil fictício, sem personalidade própria e desprovido de qualquer síntese histórica, e ainda, que não possui individualidade. Estando totalmente vinculado ao titular, servindo-o de tapume para sua personalidade e imagem, pois, o titular da obra se mantém incógnito em face da exposição de seu pseudônimo, mantendo assim o resguardo da própria identidade pessoal. Utilizado pelas mais variadas razões, são também comuns os “pseudônimos”. E, diante disto, seremos capazes de sintetizar alguns exemplos: Roberto Lyra Filho, poeta, crítico, formado em letras e em direito, conferencista, professor universitário e tradutor, usava o pseudônimo de Noel Delamare; Samuel Clemens - escritor norte-americano, mais conhecido pelo pseudônimo de Mark Twain, autor de livros excepcionais como Tom Sawyer; Allan Kardec, pseudônimo do Professor Hippolyte Léon Denizard Rivail, o codificador da Doutrina dos Espíritos e fundador do Kardecismo; Pablo Neruda é o pseudônimo do grande escritor e poeta Ricardo Eliezer Neftalí Reyes Bassoalto, que posteriormente foi oficializado como nome civil; Ferreira Gullar é o pseudônimo do grande escritor José Ribamar Ferreira; Rubem Braga, cujo pseudônimo era Cleico e RD, foi autor de inúmeras crônicas, para os mais importantes jornais e revistas do país, selecionou e reuniu muitas delas em livros; ou ainda, o exemplo magnânimo do grande pensador François Marie Arouet, mais conhecido pelo pseudônimo de Voltaire.

Por fim, dissertaremos sobre o nome artístico, que é também fictício, contudo, sua utilização não tem por finalidade a preservação da personalidade, nem da imagem, tampouco, visa o resguardo da pessoa. Objetivamente, e ou invés disso, é comumente utilizado por questões estéticas ou por parecer mais propício ao sucesso. Ou seja, o nome artístico possibilita uma maior e melhor exteriorização da imagem do indivíduo. Sim, porque os nomes artísticos viabilizam a aceitação no mundo da fama e do sucesso inerentes ao contexto das artes.
Além dos mencionados casos anteriores, o nome artístico é também bastante utilizado e, também é possível demonstrar inúmeros exemplos, veremos alguns: Boris Karloff (1887-1969) era o nome artístico cinematográfico inglês, William Henry Pratt; a atriz Marylin Monroe, também era conhecida por: Norma Jeane Baker, mas, seu nome de Batismo: Norma Jean Mortensen; temos ainda, Ringo Star, que antes dos Beatles era tão-somente Richard Starkey Jr.; bem como, é imprevisível que o nome de batismo James Byron (em homenagem ao poeta inglês), retrate o mito James Dean.

No Brasil, temos também muitos exemplos bem conhecidos do grande público, a saber: Fernando Montenegro, é o nome adotado pela grande atriz Arlette Pinheiro Esteves da Silva; Silvio Santos, é o nome artístico do apresentador e empresário Senor Abravanel; talvez, poucos saibam que o músico Jorge Duílio Lima Meneses, é o conhecidíssimo Jorge Ben Jor, que já foi noutros tempos, Jorge Bem; tampouco, percebe-se que Ney de Souza Pereira empresta sua belíssima voz à Ney Mato Grosso.

Pois bem, estes são mínimos exemplos de nomes artísticos, e já pudemos notar que eles incorporam de alguma maneira a essência não só do sucesso, mas, também do indivíduo que o utiliza.

É de suma importância mencionar uma outra variante da representação social do indivíduo, indiscutivelmente, cumpre-nos fazer constar circunstâncias em que há adoção de nomes religiosos, sim, pois, embora distintos em finalidade e objetivo dos nomes artísticos, estes últimos também são de uso comum, e tanto quanto os demais, são necessários na medida em que representam uma escolha não só religiosa, mas, visivelmente, uma filosofia adotada para toda uma vida.

Por esta razão, mencionaremos num módico parágrafo algo sobre os nomes religiosos, que muito aquém dos nomes artísticos, e além dos “apelidos notórios”, estão numa categoria à parte, porque são adotados em razão de uma crença e, significam “um mudar” na vida profana do religioso. Porque o abraçar a fé por vocação, passa a representar um renascimento, e, quando o indivíduo proclama seus votos religiosos, declara uma mudança de comportamento, de atitude e de abandono da vida pessoal e privada, para uma experiência de vida que objetiva o bem ao próximo, conseqüentemente, este ato de fé revela um renascer para um mundo, que a partir disto, é visto sob outra ótica, portanto, nada mais justo que haja um “rebatizar” simbólico.

E, para exemplificar sua ocorrência, temos: Karol Wojtyla, que foi sua Santidade o Papa João Paulo II; assim como Joseph Ratzinger, intitulou-se Bento XVI, Amabile Lucia Visintainer, em religião nomeada como Madre Paulina ; e o prêmio Nobel da paz de 1979, Madre Teresa de Calcutá que se chamava Agnes Gonxha Bojaxhiu; também o Líder espiritual tibetano (1935), Sua Santidade o 14.º Dalai Lama Tenzin Gyatso, que também foi prêmio Nobel da Paz de 1989, nasceu com o nome de Lhamo Thondup, depois, ao mudar-se para o Palácio de Potala, em Lhasa, foi empossado como líder espiritual do Tibet. Passa, então, a se chamar Jampel Ngawang Lobsang Yeshe Tenzin Gyatso.

Concluindo, vastos são os possíveis meios de utilização da antroponímia, contudo, o principal é aquele que atribui ao nome importância social, histórica, religiosa, cultural, comportamental, e porque não dizer, econômica, sendo cediço, ser o nome um “bem patrimonial” de valor apreçável.
Notas de rodapé convertidas

1. Filólogo que em sua obra: Antroponímia Portuguesa fez diversas considerações e com isto, contribuiu enormemente para a evolução deste estudo dirigido aos nomes, conforme pp.149 e ss.

2. Segundo o Prof. Pércio Pinto, do Instituto Genealógico do Rio Grande do Sul e Colégio Brasileiro de Genealogia.

3. Fernando Antônio Nogueira Pessoa (1888 – 1935)

Revista Jus Vigilantibus, Terça-feira, 16 de agosto de 2005